Quando se abre uma discussão em torno dos principais interpretes da música popular brasileira, a questão é escolher, entre os grandes cantores da época de ouro, qual deles foi o melhor. Na verdade, os primeiros colocados, na preferência popular sempre foram Francisco Alves, Orlando Silva, Silvio Caldas e Nelson Gonçalves, não só pelo extraordinário timbre de voz que cada um deles tinha, mas também pelo romantismo, já que atuaram numa época em que o amor entre um homem e uma mulher dominava por completo os temas das composições. A minha preferência já deixei registrada neste espaço e recai sobre o Orlando Silva, porém tudo é uma questão de colocação e gosto individual. Silvio integrava o grupo dos mais queridos de todos, tanto é que ganhou do locutor César Ladeira, da Radio Nacional do Rio, o apelido de Caboclinho Querido porque Sílvio Caldas tinha tudo de caboclo mesmo, mesclando uma simpatia contagiante e humilde com a arte e a maneira de ser bem popular, esquecendo a fama e glória para se apegar a todos sem qualquer tipo de discriminação ou distinção. Ele era amigo dos doutores, deputados, senadores. milionários, governadores, presidentes da República, generais, mas escalava, também no rol de relacionamento o balconista da padaria, o pintor que dava um trato em seu apartamento de Copacabana, o gari da limpeza pública, os pobres sambistas dos morros cariocas, enfim, ele era Silvio Caldas, amigo íntimo, inclusive, do General Euclides Figueiredo, o Comandante da Revolução Constitucionalista de São Paulo e pai do General João Batista Figueiredo, ex-presidente da República e que mandava o avião presidencial buscar o seresteiro já velho, para apresentações familiares na Granja do Torto, em Brasília. Silvio Antônio Narciso de Figueiredo Caldas, era seu nome verdadeiro.Ele nasceu no Rio de Janeiro, no dia 28 de maio do distante ano de 1908 e começou a cantar ainda adolescente, puxando o samba do Bloco Carnavalesco da Família Ideal, criado por uma vizinha. Em 1914, Silvio conseguiu um emprego em São Paulo e deixou o Rio de Janeiro. Pouco depois, foi parar em Catanduva, onde trabalhava de leiteiro, sempre com uma carroça, deixando garrafas de leite de porta-em-porta. Em 1927, voltou para o Rio e, certa noite, encarando uma serenata, foi ouvido por um cantor de tango que tinha o apelido de Milonguita que o levou para a Rádio Sociedade onde se apresentou em um programa de auditório. Ouvido por um diretor da gravadora RCA Victor, Silvio Caldas foi convidado a gravar o primeiro disco. Tratavam-se dos sambas Amoroso, de Quincas Freire, e Alô meu bem, de Carlos de Almeida. A partir de então, a carreira do grande seresteiro sofreu uma ascensão fantástica e tudo o que ele gravava se tornava sucesso absoluto de público. Disputado pelas grandes emissoras de rádio, Silvio passou, no Rio, pela Tupi, Nacional, Mayrink Veiga e Record de São Paulo, deixando uma discografia impressionante, da qual faço questão de registrar as músicas de seu repertório que eu considero como sendo as mais importantes, como é o caso de As pastorinhas, célebre marcha-rancho carnavalesca, Cabelos brancos, Coração, Lenço no pescoço,No Rancho Fundo, Mulher, Maria, Velho Realejo, Serra da Boa Esperança e a mais linda de todas, quando o próprio Silvio colocou a música sobre um dos versos poéticos mais belos da história da poesia brasileira, criado pelo genial Orestes Barbosa. Trata-se de Chão de Estrelas. Orestes deveria estar no Éden quando escreveu “tu pisavas os astros distraída”. Mas vamos à letra completa: Minha vida era um palco iluminadoEu vivia vestido de douradoPalhaço das perdidas ilusõesCheio dos guizos falso da alegriaAndei cantando a minha fantasiaEntre as palmas febris dos coraçõesMeu barracão no morro do SalgueiroTinha o cantar alegre de um viveiroFoste a sonoridade que acabouE hoje, quando do sol, a claridadeForra o meu barracão, sinto saudadeDa mulher pomba-rola que voouNossas roupas comuns dependuradasNa corda, qual bandeiras agitadasPareciam estranho festival!Festa dos nossos trapos coloridosA mostrar que nos morros mal vestidosÉ sempre feriado nacionalA porta do barraco era sem trincoMas a lua, furando o nosso zincoSalpicava de estrelas nosso chãoTu pisavas os astros distraídaSem saber que a ventura desta vidaÉ a cabrocha, o luar e o violão Covas Júnior – jornalistaajcovas@radiocapital.am.br