Colunistas

A MISSA EM LATIM

28/09/2007

Padre Ronaldo Mazula

No Concílio Vaticano II, de 1962 a 1965, a Igreja Católica, fez várias mudanças estruturais e pastorais e a partir daí, a missa começou a ser celebrada nas línguas vernáculas e não mais em latim. No dia 14.9.2007, foi publicado o Motu proprio ´Summorum Pontificum´, documento escrito pelo Papa Bento XVI, que incentiva a celebração da missa em latim segundo o ritual de São Pio V, do século XVI, no qual o padre ficava de costas para o povo.

O documento está provocando discussões, com defensores e críticos. O documento pontua que a "criatividade" levou frequentemente "a deformações da Liturgia no limite do suportável" e foi escrito após vários pronunciamentos anteriores: o papa João Paulo II publicou a encíclica “Ecclesia de Eucharistia” (2003), na qual fala do "decoro da celebração eucarística" e também, a Carta Apostólica "Mane Nobiscum Domine" (2004). O Sínodo dos Bispos de 2005 chamou a atenção sobre a violação das normas litúrgicas, praticadas por sacerdotes ou leigos e muitos bispos afirmaram também que as “inovações litúrgicas” no mundo ocidental obscureceram o aspecto da centralidade e o caráter sagrado da Eucaristia. (cf.: site cnbb.org).

 Bento XVI recolheu todas estas preocupações na Exortação Apostólica Pós-Sinodal "Sacramentum Caritatis", de 2007, e fala da bondade da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II.  "Algumas dificuldades e abusos não podem ofuscar a excelência e a validade da renovação litúrgica que contém riquezas ainda não plenamente exploradas", escreveu.  Ele defende que “a simplicidade dos gestos e a sobriedade dos sinais, situados na ordem e nos momentos previstos, comunicam e cativam mais do que o artificialismo de adições inoportunas.”

Neste documento, o Papa combate alguns abusos: o excesso de protagonismo dos leigos durante as celebrações, a partilha da comunhão com não-católicos, a substituição das leituras bíblicas na Missa por outros textos, o hábito dos sacerdotes de partirem a hóstia no momento da consagração, a exposição do Santíssimo em condições inadequadas ou a introdução de elementos não-cristãos na Liturgia Católica. A tese central do documento afirma que “não se podem deixar passar em silêncio os abusos, da máxima gravidade, contra a natureza da Liturgia e dos Sacramentos, bem como contra a tradição e a autoridade da Igreja que subsistem em diversos âmbitos e comprometem a celebração litúrgica”.

            Vittorio Cristelli, comentarista católico de revistas européias, no dia 3.9.2007, no site adital.com.br, afirmava que “causa discussão o "Motu proprio" com o qual Bento XVI autoriza a celebração da Missa em latim com o missal pré-conciliar de Pio V. O fato que o Papa tenha recorrido ao "Motu proprio", isto é à iniciativa pessoal para esta operação, significa que nem todos, nem mesmo dentro do Vaticano, estão de acordo, menos ainda, entusiastas.” 

Já Marcelo Barros, monge e escritor brasileiro, no site ´adital.com.br, escreveu um artigo sobre o tema e afirma que “muitos bispos, padres e fiéis católicos sofrem porque percebem que, por trás desta decisão do papa, o que está em jogo é, como se dizia no Brasil das comunidades eclesiais de base, "um modo de ser Igreja e um modo da Igreja ser".  O problema não é recuperar o rito romano usado antes do Concilio Vaticano II, nem apenas a volta ao latim. É sepultar de vez um modelo de Igreja, ensaiada no Concílio e que se dispunha a viver em diálogo com a humanidade e mais como povo de Deus do que como um governo central de assuntos religiosos...  Para o Concílio Vaticano II, o importante era a participação ativa e consciente da comunidade local em uma celebração que fosse fonte e expressão da vida de cada Igreja, reunida aqui e agora, em comunhão com a Igreja Universal.”

Muitos afirmam que a decisão papal tem por objetivo agradar grupos de católicos conservadores da Europa e outras regiões, onde a liturgia tridentina e a missa latina têm muitos defensores. Aqui no Brasil, muitos padres e o povo não conhecem o latim e não celebrarão nesta língua. Mesmo porque, liturgia latina dificulta a comunicação com os fiéis. Quem segue o pontificado de Bento XVI sabe de sua preocupação em manter sanas as tradições e as doutrinas católicas, às vezes, com acento conservador. O papa quer preservar o essencial da celebração eucarística, evitando ambigüidades e inovações e dialoga com grupos mais conservadores, contrariando as iniciativas do Concílio Vaticano II. Substancialmente, creio que o documento não trará muitas mudanças no modo como celebramos a missa hoje, pois a liturgia inculturada e outros passos dados, não nos permitem retroceder, retomando um modelo que já não tem sentido em nossas comunidades.

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