Passada a Semana Santa, vivendo agora os dias pós-pascais, ouvindo os relatos diários da liturgia da Palavra, onde narra as aparições de Jesus e a sua vitória sobre a morte, sempre vem a minha mente uma intrigante pergunta: Por que mataram Jesus?
Sempre achei que a condenação contra o Homem Nazareno fora injusta, mesmo não sendo advogado. Certa vez, conversando com um ilustre advogado de feliz memória, Dr. José de Paula Ferreira, ele deixava claro que a condenação fora injusta, dentro de uma visão jurídica. Hoje, com uma visão teológica que tenho mais clara, lendo e relendo a Palavra de Deus, vou descobrindo melhor as razões que o levaram à condenação. Portanto, os homens de poder daquela época não tinham essa visão teológica que hoje temos e dessa forma, interpretaram de maneira errada tudo o que Jesus afirmava ser.
O primeiro motivo foi o de ter sido acusado de ser divino; Pilatos diz a Jesus: “Não sabes que tenho poder para te soltar e poder para te crucificar?” (Jo 19,10). Ao ouvir aquelas palavras, Jesus afirmou: “Não terias poder nenhum sobre mim, se não te fosse dado do alto” (Jo 19,11). Pilatos fica ofendido porque considerava que o poder era outorgado por Tibério Cesar, o imperador romano.
O segundo motivo veio do povo ignorante e manipulado, julgava que Jesus estivesse traindo o Imperador e por isso reage quando Pilatos o apresenta, dizendo: “Eis o vosso Rei” (Jo 19,14). Imediatamente a multidão responde: “Não temos outro rei a não ser Cesar” (Jo 19,15). O povo que assim gritava estava traindo sua própria nação, porque preferiram aclamar Tibério Cezar que era romano, como seu rei e desprezaram Jesus que era de origem judaica.
O terceiro motivo da condenação de Jesus foi por medo de perder o poder, porque se Pilatos não condenasse Jesus, cujo julgamento estava sob o comando romano e caso fosse para Cesar julgar o processo, este poderia ser adiado e transferido para Roma. Por isso Pilatos, para não comprometer a carreira política, cometeu um crime contra a sua própria consciência. Querendo abrandar o seu sentimento de culpa, lavou as mãos. Nós também lavamos nossas mãos algumas vezes.
Diante de tudo isso, Pilatos não podia fazer mais nada do que lavrar a sentença, baseado nas acusações dos judeus e não em sua consciência.
A seguir, vou transcrever a cópia fiel do processo de Jesus Cristo que se encontra hoje no Museu da Espanha: (Do livro “O Mestre dos Mestres”, Augusto Cury, p 115):
“No ano dezenove de TIBÉRIO CESAR, Imperador Romano de todo o mundo. Monarca invencível na olimpíada cento e vinte... sob o regimento e governador da cidade de Jerusalém, Presidente Gratíssimo, PÔNCIO PILATOS. Regente na baixa Galiléia. HERODES ANTIPAS. Pontífice sumo sacerdote, CAIFÁS, magnos do Templo, ALIS ALMAEL, ROBAS ACASEL, FRANCHINO CENTAURO. Cônsules romanos da cidade de Jerusalém, QUINTO CORNÉLIO SUBLIME E SIXTO RUSTO, no mês de março e dia XXV do ano presente – EU, PÔNCIO PILATOS, aqui presidente do Império Romano, dentro do palácio e arqui-residente, julgo, condeno e sentencio à morte, Jesus, chamado pela plebe – CRISTO NAZARENO – e Galileu de nação, homem sedicioso, contra a Lei Mosaica – contrário ao grande Imperador TIBÉRIO CESAR. Determino e ordeno por esta, que se lhe dê morte na cruz, sendo pregado com cravos como todos os réus, porque carregando e ajuntando homens, ricos e pobres, não tem cessado de promover tumultos por toda Galiléia, dizendo-se filho de DEUS E REI DE ISRAEL, ameaçando com a ruína de Jerusalém e do Sacro Templo, negando os tributos a César, tendo ainda o atrevimento de entrar com ramos e em triunfo, com grande parte da plebe, dentro da cidade de Jerusalém. Que seja ligado e açoitado e que seja vestido de púrpura e coroado de alguns espinhos, com a própria cruz nos ombros, para que sirva de exemplo a todos os malfeitores, e que, juntamente com ele, sejam conduzidos dois ladrões homicidas; saindo logo pela porta sagrada, hoje ANTONIANA, e que se conduza JESUS ao Monte Público da justiça chamado de CALVÁRIO, onde, crucificado e morto, ficará seu corpo na cruz, como espetáculo para todos os malfeitores e que sobre a cruz se ponha, em diversas línguas, este título: JESUS NAZARENUS, REX JUDEORUN. Mando, também, que nenhuma pessoa de qualquer estado ou condição se atreva, temerariamente, a impedir a justiça por mim mandada, administrada e executada com todo rigor, segundo os Decretos e Leis Romanos, sob pena de rebelião contra o Imperador Romano. Testemunhas da nossa sentença: Pelas doze tribos de Israel: RABIM DANIEL, RABIM JOAQUIM BANICAR, BANBASU, LARÉ PETUCULANI. Pelos fariseus: BULLIENIEL, SIMEÃO, RANOL, BABBINE, MANDOANI, BANCUR FOSSI. Pelo Império Romano: LUCIO EXTILO E AMACIO CHILCIO.”
A SENTENÇA de Pilatos mostra os falsos motivos pelos quais Jesus foi condenado á morte. Mostra que muitas pessoas proeminentes do império Romano e de Israel testemunharam e aprovaram a sentença condenatória. Todavia, três verdades ressaltam nessa peça processual.
Assim pudemos perceber os argumentos falsos que levaram Jesus à condenação. Percebemos também que Jesus era considerado um grande comunicador, um grande líder e era o Filho de Deus. Se também nós estivéssemos presentes naquele julgamento, com a mesma ignorância e falta de coragem para questionar Jesus e medo de defendê-lo como aquele grupo de fariseus, talvez assinássemos também a ata desta condenação.