Corria o ano de 1949, os mais antigos jamais se esqueceram daquela tarde trágica de domingo, na Rua Javari, bairro da Mooca, em São Paulo, estádio do Juventus. Eu era pequeno demais, mas, anos depois, fui tomando ciência de detalhes que marcaram a maior ladroeira da história do futebol brasileiro. Esse comentário, aliás, ouvi de dois falecidos colegas jornalistas e radialistas, Pedro Luiz e Otávio Muniz, com os quais trabalhei na Rádio Record no início dos meus 33 anos vividos na emissora de Paulo Machado de Carvalho. Meu inesquecível amigo Muniz tinha até uma gravação em fita, narrando momentos do jogo em que o Batatais Futebol Clube, considerado “O Fantasma da Mogiana”, foi roubado e humilhado por um juiz contratado no exterior pela Federação Paulista de Futebol para forjar, de qualquer maneira, a vitória do Guarani e, ao mesmo tempo, possibilitar o acesso do clube campineiro à divisão principal do futebol paulista. Na verdade, o que aconteceu era de fácil explicação. Apesar de ter um time invencível, naquela época os meios de ligação da cidade com a capital e outros centros maiores se limitavam praticamente à velha Mogiana e arriscadas travessias numa Anhanguera que nem asfalto tinha. Esse seria o argumento para tornar o Guarani campeão da Segunda Divisão de Profissionais de qualquer maneira, e não o Batatais. De qualquer forma, seria necessário encontrar uma solução para derrubar o “fantasma” porque, na bola, era impossível. O time – de fato - era fora de série. O Goiano, que foi meu ídolo no Corinthians, um dia chegou às lágrimas quando pedi que ele falasse do Batatais e daquele jogo . Ele era um dos craques daquele timasso e lembrou que o Godê, meio de campo do Guarani, parou a bola com a mão e deu um chutão para frente. Todo mundo ficou parado, esperando Mister Sunderland – o ladrão inglês que apitou o jogo – paralisar a partida. Luizinho, o goleiro, também ficou parado e a bola entrou. E o juiz validou o incrível gol. O indignado Otávio Muniz irradiava pela antiga Panamericana, hoje Jovem Pan, e Pedro Pedro Luiz gritava providências pela Record. Luizinho, pai da cantora Vanusa, pensou em esganar o safado britânico no que foi seguido pelo Estacis, Goiano, Dido, seu irmão Pixo, os irmãos Luiz e Tonho Rosa, Xorête, enfim, a revolta em campo foi generalizada, mas a então Força Pública não deixou que se consumasse a agressão. Veio o apito final e a derrubada de um grande sonho. O “fantasma” foi desfeito. Goiano foi parar no Corinthians e se tornou o grande campeão do XIV Centenário. Estacis foi para o Radium de Mococa e disputou a Primeira Divisão em 51. Dido e Pixo foram contratados pelo próprio Guarani, que reconheceu o talento dos dois e os outros seguiram seus destinos.Tarde de domingo passado, ligo a televisão e fico sabendo que o Guarani foi rebaixado. Abri um belo vinho italiano e tomei a garrafa inteira. Não pensei em vingança, mas fiz questão de comemorar em alto estilo.