Para significar a atualidade da história da salvação, a liturgia usa o termo hoje. Assim, na celebração do Natal, a antífona da entrada proclama: “Hoje surgiu a luz para o mundo: O Senhor nasceu para nós” (Is 9,2.6). No domingo da Páscoa a Igreja ora: “ Ó Deus, por vosso Filho Unigênito, vencedor da morte, abristes hoje para nós as portas da eternidade”... No prefácio da festa da Ascensão do Senhor, o presidente da celebração anuncia: “Vencendo o pecado e a morte, vosso Filho Jesus, Rei da glória, subiu hoje ante os anjos maravilhosos ao mais alto dos céus”. Por ocasião da celebração de Pentecostes a liturgia aclama: “Para levar à plenitude os mistérios pascais, derramastes, hoje, o Espírito Santo prometido em favor dos vossos filhos e filhas” (Prefácio do dia).Os acontecimentos salvíficos celebram um eterno presente. A história da salvação, antes de ser palavra escrita, é um conjunto de acontecimentos sagrados. Deus vem e intervém na vida dos homens. A Bíblia chama a esses fatos “maravilhas de Deus” (MIrabilia Dei). São intervenções decisivas, criadoras, por meio das quais Deus revela sua grandeza soberana, que transcende nossa condição humana; elas se inserem em um único designo, em um eterno hoje salvífico.Ao proclamar “este é o dia que o senhor fez para nós”, o salmista deseja tornar presente o mistério da salvação. Leão Magno intui esta verdade e comenta: “Tudo quanto o Filho de Deus fez e ensinou para a reconciliação do mundo, podemos saber não apenas pela história do passado, mas no presente” (Sermão 12 – Liturgia das Horas, quarta-feira da segunda semana do tempo pascal).A exultação pascal é fruto exatamente dessa presença: Transbordando de alegria, a Igreja celebra a palavra e na eucaristia, de modo particular, o verdadeiro Cordeiro que tira o pecado do mundo. “Exulte o céu e os anjos triunfantes, mensageiros de Deus, desçam cantando. Façam soar as trombetas fulgurantes, anunciando a vitória do ressuscitado, mediante a ação do seu Espírito. É, também, sinal de constância, de longanimidade e de fé (Cl 1,11; 1Pd 1,8).A alegria cristã não brota apenas de motivos humanos; inclui um chamado à salvação: “Alegrai-vos sempre no senhor! Repito: alegrai-vos! O Senhor está próximo” (Fl 4,4). Ele está no meio de nós; dentro de nós. Jesus ressuscitado inaugura o dia eterno, que não conhece ocaso. Jesus, ontem, hoje e sempre, fonte de alegria. Ele ressuscitou: com ele, por ele e nele já celebramos antecipadamente nossa ressurreição.São Máximo de Turim, bispo afirma que este dia é o próprio Cristo: “A ressurreição de Cristo é vida para os mortos, perdão para os pecadores, glória para os santos. Por isso, o santo profeta convida toda as criaturas para a festa da ressurreição de Cristo, exultando e se alegrando neste dia que o Senhor fez... Este dia é o próprio Cristo. Sobre ele, o Pai, que é o dia sem princípio, faz resplandecer o sol de sua divindade. Ele mesmo é o dia que assim fala pela boca de Salomão: “Fiz brilhar no céu uma luz que não se apaga”” (liturgia das Horas, 5º domingo da Páscoa).