Na verdade, Getúlio Vargas começou a morrer na noite de 5 de agosto de 1954. Sem que ele soubesse, elementos de sua mais íntima confiança estavam tramando matar o deputado e jornalista Carlos Lacerda, dono do jornal “Tribuna da Imprensa”, que fazia uma ferrenha oposição ao governo getulista. Lacerda era membro da chamada “Banda de Música” da extinta UDN, partido que atacava Getúlio por todos os lados. E o apelido “Banda de Música” deve-se ao barulho que os deputados e senadores faziam em plenário contra Vargas. Naquela madrugada, Lacerda chegava em seu prédio, na Rua Toneleros, em Copacabana, depois de um comício em Madureira. Ele estava acompanhado pelo filho Sergio, então com 14 anos, e pelo major da Aeronáutica Rubens Florentino Vaz. Quando Lacerda e o filho desceram do carro e se despediam do amigo aviador, alguém abriu fogo contra eles: era o pistoleiro Alcino do Nascimento, contratado por Climério de Almeida membro da guarda pessoal de Getúlio, que era comandada por Gregório Fortunato, o principal guarda-costas do presidente. Alcino disparou, Lacerda e o filho se jogaram no chão, houve o revide, o jornalista e político foi atingido no pé direito e o major Vaz recebeu um tiro fulminante no peito, morrendo no local. Diante do enorme alvoroço e repercussão nacional, Getúlio disse o seguinte: esses tiros me feriram pelas costas. Imediatamente, as suspeitas logo recaíram sobre Gregório. Naquela manhã do dia 5, Getúlio chamou o “anjo negro” – como ele era apelidado – para saber se ele tinha alguma participação no episódio que sacudia o país, e Gregório jurou que não tinha a nada a ver com o crime. À tarde, no Congresso, o líder getulista, Gustavo Capanema, lia uma declaração assinada por Vargas, na qual o presidente destacava o seguinte: até agora, considerava Lacerda meu principal inimigo. Mas agora, o considero meu inimigo número 2; o número 1, aquele que causou o maior prejuízo ao meu governo, foi o homem que atentou contra sua vida. Mas a situação começou a se complicar mais ainda quando um motorista de táxi que fazia ponto perto do Palácio do Catete se apresentou à polícia para dizer que, na noite anterior, havia levado um membro da guarda, ou seja, Climério, ao local do crime. Imediatamente os protestos militares aumentaram e, a Aeronáutica – a quem pertencia o major morto – avocou para si o inquérito policial, concentrando os trabalhos de investigação na Base Aérea do Galeão, criando, dessa forma, a chamada República do Galeão. No dia 8 de agosto, com o clima extremamente elevado e tenso, Getúlio dissolveu sua guarda pessoal, enquanto os deputados e senadores da UDN – sempre incentivados pelo brigadeiro udenista Eduardo Gomes – clamavam pela renúncia imediata do presidente, ao mesmo tempo em que o Alto Comando das Forças Armadas, com seus oficiais generais, bombardeava todas as resistências de Vargas. No dia 12, foi realizada a missa de sétimo dia do major, na Igreja da Candelária lotada. Em Minas, onde inaugurava uma usina ao lado do então governador Juscelino Kubitschek, Getúlio discursava e alertava...:advirto aos eternos fomentadores da provocação e da desordem que saberei resistir. Não adiantou nada essa tentativa de resistência, pois, no Rio, Alcino do Nascimento era preso e acabou confessando que atirou para matar Lacerda, por encomenda de Climério – subordinado de Gregório na segurança presidencial, e que estava foragido. As suspeitas de autoria intelectual do crime recaíram sobre Lutero, filho do presidente. Lutero, que era deputado federal, apresentou-se aos militares na “República do Galeão”, renunciou à imunidade parlamentar e disse que “estava sendo vítima de uma torpe difamação”. Mas a crise agravou-se mais ainda na noite de 16 de agosto, quando o ministro da Aeronáutica e herói da Segunda Guerra, brigadeiro Nero Moura, pediu demissão do cargo. No dia 18, Climério caiu nas mãos de oficiais da Aeronáutica. Preso, ele confessou que recebeu ordens expressas de Gregório Fortunato para matar Carlos Lacerda e Gregório também foi detido. Não havia mais como Getúlio continuar no cargo. No dia 22 de agosto, os brigadeiros divulgaram um manifesto exigindo sua renúncia. Para aumentar mais ainda a tensão, aviões da Aeronáutica davam vôos rasantes sobre o palácio. No dia 23, chegou a vez dos generais do Exército, cujo manifesto terminava da seguinte maneira: os abaixo-assinados declaram julgar como melhor caminho para a tranqüilidade do povo e manter unidas as Forças Armadas, a renúncia do Presidente da República. Exausto, Getúlio convocou uma reunião ministerial. Os ministros foram acordados de madrugada. 4 horas da manhã do dia 24, não havia solução alguma. Alguns ministros queriam a resistência, mas José Américo de Almeida engrossou o coro dos militares e disse a Getúlio que ele tinha que renunciar de qualquer maneira, para evitar derramamento de sangue. Foi então que o presidente abriu a gaveta da mesa, puxou um papel e rabiscou o seguinte: já que o ministério não chegou a uma conclusão, eu vou decidir. Determino que os ministros militares mantenham a ordem pública. Se a ordem for mantida, entrarei com um pedido de licença. Em caso contrário, os revoltosos encontrarão aqui o meu cadáver. Dito isso, ele se recolheu aos seus aposentos e o ministro da Justiça, Tancredo Neves, ficou encarregado de redigir a carta de licença. OS MINUTOS FINAIS 4 horas e 20 minutos: o Ministro da Gerra, general Zenóbio da Costa, deixou o palácio apressado para comunicar a decisão aos demais generais.4 horas e 45 minutos: Tancredo, com o ministro Oswaldo Aranha e Alzirinha – a filha de Vargas – sobem para submeter o texto da nota a Getúlio. De pijama, o presidente concorda e a Rádio Naicional do Rio transmite a decisão à nação.7 horas e 30 minutos: Benjamin – o Bejo - irmão de Vargas, vai ao quarto e informa que os militares não aceitaram a licença. Eles queriam a renúncia imediata.8 horas e 15 minuto: o barbeiro Barbosa, como fazia todas as manhãs, entra na suíte para fazer a barba do presidente e Getúlio o dispensa.8 e 5: um oficial de gabinete viu que Getúlio saiu e voltou com alguma coisa volumosa no bolso do pijama. Era um colt, calibre 32. 8 horas e 30 minutos: Getúlio senta na cama, aponta o revólver para o peito, na altura do coração, e dispara. Darcy – a esposa – corre. Tancredo e Alzirinha também correm. Doutor Flávio Miguez de Mello, o médico, entra logo em seguida. Tancredo coloca meio corpo de Getúlio em seu colo, e o presidente dá o último suspiro. Como disse em sua carta-testamento...saiu da vida e entrou para a história.