Colunistas

A IGREJA DE JESUS CRISTO

18/02/2010

Padre Pedro

Imediatamente depois da descrição da descida do Espírito Santo e da citação das palavras de Pedro, prossegue a narrativa dos Atos dos Apóstolos:

 

“Os que receberam a sua (=de Pedro) palavra foram batizados. Naquele dia, elevou-se a mais ou três mil o número de adeptos. Aplicavam-se,

Seriamente, à doutrina dos apóstolos, mostravam-se fiéis às reuniões em comum, à fração do pão e às orações. De todos eles se apoderou o temos, pois pelos apóstolos foram feitos também muitos prodígios e milagres em Jerusalém. E em todos era grande o pavor. Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nas por todos, segundo a necessidade de cada um. Unidos de coração, freqüentavam todos os dias o templo. Partiam o pão nas casas e tomavam a comida com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e cativando a simpatia de todo o povo”. E o Senhor cada dia lhes ajuntava outros, que estavam a caminho da salvação” (At2, 41-47).

Com estas palavras tão simples, descreve-se a irrupção da salvação de Deus: a um pequeno grupo de homens que em Jerusalém acreditam que em Jesus se venceu a morte, desceu o Espírito Santo e se remiram os pecados. Plácida e despretensiosamente. Com se sói acontecer ás grandes coisas, assim veio a salvação: de modo simples e sem barulho.

Na descrição acima, já reconhecemos a Igreja de hoje: as multidões; o batismo; a doutrina; a fração do pão; o acatamento, ou seja, a consciência de Deus estar presente e agir; a direção pelos apóstolos; o auxílio mútuo; a comunhão de bens (que é vivida agora sob várias formas, desde a coleta até o voto de pobreza); a alegria; certa confiança da parte dos não-cristãos.

É claro que naquele tempo, não existia tantos problemas. E por causa do pequeno número. Tudo possuía ainda seu primeiro frescor. Por isso é que a igreja tem olhado sempre com saudades para a alegria do primeiro florescimento.

E tem-no feito de modo particular, em períodos de nova reflexão como nos séculos XIII, XVI e no nosso. Deixamo-nos inspirar pela simplicidade do início.

Que também no princípio não faltam às dificuldades, de dentro e de fora, mostram-nos os Atos dos Apóstolos e as Cartas de São Paulo. Nisso reconhecemos igualmente, a Igreja de hoje. Sempre houve problemas.

Uma das maiores dificuldades iniciais é a relação do Cristianismo com a antiga revelação e com a religião judaica. De fato evidencia-se cada vez mais, que não-judeus podem ser aceitos como membros equivalentes do novo povo de Deus, a Igreja, e isto sem obrigação de observarem a lei judaica. Ao mesmo tempo, torna-se tragicamente claro que a grande maioria em Israel recusa-se a reconhecer Jesus. Enquanto a Igreja está construída sobre Israel, enquanto Jesus, Maria e os apóstolos são judeus; o povo escolhido não ingressa nela, como conjunto. Permanece, no entanto, como povo de Deus, por primeiro chamado. A sua existência contém um mistério. Sente-se-lhe a grandeza nos capítulos 9-11 da carta de São Paulo aos Romanos.

Este autor, que é judeu, tem a convicção de que desta situação provirá salvação, também para os judeus. Continuam sendo chamados.  “Os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis” (Rom11, 29). Enquanto o povo, os judeus estão mais intimamente relacionados com a salvação do que todos os demais homens. O Concílio Vaticano II declarou expressamente que na Sagrada Escritura não se acha nenhuma prova de que Israel, enquanto o povo seria rejeitado ou amaldiçoado.

Há no primeiro século certo número de cristãos de origem judia, que querem impor a todos, como obrigatórios certos usos judaicos, quais sejam a circuncisão e as leis rituais a cercam dos alimentos. Isso leva a uma separação que durará alguns séculos. É o primeiro dos várias e dolorosas cismas que haverão de atingir a Igreja de Deus. Também já se mencionavam no Novo Testamento doutrinas falsas: heresias. Tudo isso deixa claro que a Igreja vai vivendo crescendo sempre procurando e tateando no meio de dificuldades e de discórdia. Aqui igualmente para que “a disposição de muitos corações fosse revelada” (Lc2, 35). O que naturalmente não quer dizer que cada “cismático” ou cada “herege” tinha pessoalmente culpa, mais que podia haver, realmente, orgulho e “dureza de cerviz” nos erros doutrinais. Assim julgam os autores do Novo Testamento. Sentimos nesse juízo o alto valor que, desde o princípio, a igreja tem dado à conservação da fé pura dos apóstolos, e, de outro lado, a sua aversão, a qualquer deformação, empobrecimento e distorção da revelação divina.

A igreja tem de salvaguardar, nessa terra, a mensagem que não é desta terra. Nunca pode fugir a essa responsabilidade, mesmo se eu quisesse. Quando à doutrina de Deus, a Igreja não “pode dar um jeitinho”. Prejudicaria, assim, a crentes e descrentes, pondo-os na escuridão. De outro lado, continuamente, terá de repensar a verdade revelada e de dar-lhe forma sempre nova, apropriada ao tempo em que vive. Salvaguardar pura e integramente; repensar e atualizar, em espírito de abertura: ambas estas atividades da igreja verificam-se, nitidamente, na maneira com que nasceram em seu seio os livros do Novo Testamento.

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