Aquela primeira fase da década de 40 do século passado foi “divina” para a grã-finagem da histórica e antiga capital federal. Os ricaços do Rio de Janeiro caíram na farra, sob o patrocínio do Estado Novo. Getúlio Vargas tinha a certeza que estava se perpetuando no poder, depois do golpe de 37. Com a 2ª Guerra Mundial e a necessidade de criar aliados, os Estados Unidos namoravam o Brasil com sua “política da boa vizinhança”. Dos americanos, ganhamos a primeira siderúrgica, implantada em Volta Redonda por questões estratégicas, por situar-se entre o ferro de Minas, o carvão de Santa Catarina e ficar ao lado da Central do Brasil; Walt Disney subia o Morro da Mangueira para conhecer de perto a batida do samba; Carmen Miranda sacudia as cadeiras e revirava os olhos de alegria com a fortuna que ganhava em Hollywood; Orlando Silva era o “cantor da multidões”; Francisco Alves animava o povão com suas marchinhas carnavalescas; Ataulfo Alves cantava a “Amélia” – aquela que era a mulher de verdade - o sucesso feito em pareceria com Mario Lago; e os salões do Rio ferviam em festas apoteóticas, sempre patrocinadas pela primeira-dama, dona Darcy Vargas. Bejo – Benjamim Vargas – irmão de Getúlio, circulava fantasiado de Al Capone com o 38 na cintura, comandando as noites memoráveis do Tênis Clube de Petrópolis, ao lado de deputados, senadores e milionários magnatas, sempre com poder para mandar parar a orquestra quando precisava resolver algum assunto político importante. No dia 19 de abril, o DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda – organizou festas memoráveis para comemorar os 58 anos de vida do chefe Getúlio. De madrugada, a elite carioca, com “smokings” e vestidos de gala, se reuniu em uma magnífica noitada no Clube Ginástico Português, abrilhantada pela orquestra do maestro e clarinetista norte-americano Benny Goodman. No fundo do salão, uma gigantesca foto estampava o rosto do presidente que não imaginava que um dia deixaria a vida com uma bala no peito disparada por ele mesmo. Mas, naquela festa, só faltou uma pessoa especial: ele mesmo. Getúlio descansava na Fazenda Jardim, do milionário paulista João Scarpa, na estância mineral de São Lourenço, Minas Gerais. Ali perto, no Hotel Brasil, outra casta de ricaços, sempre com o mesmo propósito de comemorar o aniversário do líder, requebrava as cadeiras dançando rumba ao som da orquestra cubana de Ernesto Lecuona. Às seis horas da manhã daquele dia, 40 aviões da recém-criada Força Aérea Brasileira sobrevoavam a fazenda, jogando pétalas de rosas sobre o casarão onde Vargas se hospedava. Tudo eram rosas naqueles tempos. Até o espetáculo JOUJOUX E BALANGANDÃS,organizado por dona Darcy, no Teatro Municipal do Rio, era o grande destaque dos jornais e revistas. Ela teve a idéia de mandar produzir um “show” meio doido, misturando no palco artistas de renome como Ari Barroso, Lamartine Babo, Francisco Alves, as irmãs Linda e Dircinha Batista, a vedete Virgínia Lane – notório caso amoroso do presidente – e outros famosos, com amadores, filhos de integrantes da então chamada “alta sociedade”. Tudo isso para a montagem do espetáculo que contava as peripécias de uma tal “família Moura Durães” – inventada pelo produtor e diretor Luiz Peixoto, e que realizava uma viagem pelas Américas à bordo da frota “Boa Esperança”, também imaginária. Nesta noite do seu aniversário, Getúlio já estava lá, no teatro. No fim do tal espetáculo, quando ele, a mulher Darcy e a filha Alzira retornavam para o Catete, o presidente se deparou com um recado deixado sob forma de pichação no paredão do palácio, evidentemente borrado por pessoas revoltadas com a vida mansa daquela casta de privilegiados. A frase dizia: CHEGA DE JOUJOUX E BALANGANDÃS. QUEREMOS É ÁGUA.