Colunistas

O Sagrado Coração e a Bíblia

18/06/2010

Padre Pedro

A história da Igreja nos ensina que as expressões de fé que tem base bíblica conseguem ultrapassar culturas, épocas e costumes e permanecem sempre. Ora, a base da espiritualidade do coração de Jesus está na Bíblia. Nela encontramos, somente no antigo Testamento, 853 vezes a palavra “coração” – por exemplo, na promessa: “Eu vos darei um coração novo e porei em vós um espírito novo. Removerei de vosso corpo o coração de pedra e vos darei um coração de carne”. No Novo Testamento, essa palavra aparece 159 vezes. Na maioria delas, mais do que se referir ao órgão físico, sintetiza a interioridade da pessoa, sua intimidade e o mais profundo do seu ser. É o que percebemos no convite de Jesus: “Vinde a mim vós todos que estais cansados sob o peso de vosso fardo e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração”.            Quem penetra nesse Coração manso e humilde passa a compreender a razão de sua predileção pelos pecadores, pobres e aflitos; partilha de seu ardente amor de Pai; descobre as dimensões de seu amor e sente-se motivado a se jogar com confiança nele. É o caso do apóstolo S. Paulo, que fez tão profunda experiência da intimidade de Cristo que passou a insistir: “Cristo habite pela fé em vossos corações, arraigados e consolidados na caridade, a fim de possais, com todos os cristãos, compreender qual seja a largura, o comprimento, a altura e profundidade, isto é, conhecer a caridade de Cristo, que desafia todo o conhecimento, e sejais cheios de toda a plenitude de Deus”.            Um biblista belga, Ignace de Ia Potterie, escrevendo sobre a intimidade de Cristo, isto é, sobre seu “coração”, insiste que Jesus tinha consciência de ser ele mesmo “o Reino de Deus”. Converter-se e crer no Evangelho quer dizer converter-se a Jesus, penetrar na intimidade de seu Coração e viver e por ele. É isso que entendemos, por exemplo, com a invocação: “Coração de Jesus, rei e centro de todos os corações”. Entramos em seu reino, isto é, penetramos em sua interioridade, quando começamos a reconhecê-lo como Rei e Senhor, quando aceitamos que seja ele a reinar em nossos corações. Damos outro passo no conhecimento de sua intimidade quando descobrimos as razões e os modos de sua obediência ao Pai. Jesus foi obediente não só para nos deixar um exemplo, mas porque tinha clara consciência de ser, acima de tudo, Filho. Tendo uma profunda intimidade com o Pai e, sabendo-se infinitamente amado por ele, como não lhe obedecer? A obediência era-lhe, pois, natural, e até mais do que isso: uma agradável obrigação de todo o seu ser. Obedecendo, viva, mais do que em qualquer outra circunstancia, a condição de Filho. Deus é seu “Abbá”, seu Pai querido.            Também o apóstolo e evangelista João refere-se à intimidade de Cristo, ao seu “coração”, mas de outra maneira. Presente no Calvário quando Jesus consumava sua obra, o evangelista relata com pormenores o que testemunhou: “Era o dia de preparação do sábado, e esse seria solene. Para que os corpos não ficassem na cruz no sábado, os judeus pediram a Pilatos que mandasse quebrar as pernas dos crucificados e os tirasse da cruz. Os s soldados foram e quebraram as pernas, primeiro a um dos crucificados com ele, e depois ao outro. Chegando a Jesus viram que já estava morto. Por isso, não lhe quebram as pernas, mas um soldado golpeou-lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água. (Aquele que viu dá testemunho, e o seu testemunho é verdadeiro; ele sabe que fala a verdade, para que vós, também, acrediteis.) Isso aconteceu para que se cumprisse a escritura que diz: “Não quebrarão nenhum dos seus ossos”. E um outro texto da escritura diz: “Olharão para aquele que traspassaram”.            “Olharão para aquele que traspassaram”. S. João vê no coração traspassado de Jesus um sinal escolhido por deus para testemunhar seu amor. Vê nesse sinal o maior prodígio da história da Salvação; a maior epifania do amor de Deus; o ponto mais alto e a síntese de todo o mistério pascal. Não vê esse fato como casual, mas como um acontecimento projetado por Deus e até anunciado no Antigo Testamento.            O sangue que sai do lado de Cristo é sinal de libertação; por ele concretiza-se a nova aliança: “Este é o meu sangue da nova aliança, que é derramado em favor de muitos, para remissão dos pecados”. Assim, no Coração aberto de seu Filho, Deus marca um encontro conosco, mostra-nos sua misericórdia e nos dá seu abraço de Pai.            A água que sai do lado de Cristo é a “água viva”, prometida por Jesus á samaritana: quem dela beber, “nunca mais terá sede”. É, também, a água prometida a todos “no último e mais importante dia da festa” das Tendas. Se alguém tem sede, venha a mim, e beba quem crê em mim” – conforme diz a Escritura: “Do seu interior correrão rios de água viva”.            Ao evangelista João não interessa somente o que sai – sangue e água – mas de onde sai: do lado aberto do Coração de Cristo, de seu Coração traspassado. Sagrado Coração de Jesus, portanto, é um outro nome que a Igreja dá ao Traspassado na Cruz.            Desde os primeiros tempos de sua história, a Igreja elevou seu olhar para o Coração de Cristo, ferido pela lança do soldado na Cruz. Olhando para aquele que foi traspassado, queria penetrar na intimidade de seu Senhor. Desse olhar nasceu uma descoberta, que o Concílio vaticano II assim resumiria: ele nos “amou com um coração humano”. 

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