A manhã de 27 de setembro de 1952 estava ensolarada e quente em Batatais. Era um domingo, eu tinha 8 anos de idade e havia assisto à missa celebrada pelo Padre Mário. Na saída, na escadaria da Matriz, ouvi o João Lopes de Oliveira informando, pelo serviço de alto falantes da praça, o falecimento do cantor Francisco Alves. A notícia foi um grande choque para todos. Corri para a casa de minha avó materna e minhas tias choravam, ouvindo a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, em programação especial de luto. Francisco Alves era um ídolo de extraordinária força carismática. Recordista absoluto em gravações de discos 78 rotações, ele havia se apresentado na noite anterior no Largo da Concórdia, em São Paulo, para uma multidão fenomenal que tomou conta de toda aquela região do Brás. Tratava-se de uma apresentação organizada pela antiga Rádio Nacional de São Paulo, que pertencia à mesma Organização Vitor Costa, proprietária da Nacional do Rio, onde o cantor era contratado e seu principal ídolo. Depois daquele show em praça pública, Chico – que também era apelidado de Chico Viola – contrariando conselhos para viajar ao amanhecer, resolveu encarar a Via Dutra em seu Ford novinho e importado, na companhia de um cunhado que era seu empresário. Na altura de Pindamonhangaba, ele foi fechado por um caminhão carregado de latões de gasolina. Houve o choque, uma violenta explosão e o cantor e o acompanhante morreram carbonizados. Um dia, na Rádio Record, gravei um programa com o Rago, um dos maiores violonistas brasileiro de todos os tempos. Rago, falecido no ano passado, com 92 anos, tornou-se meu grande amigo dos chorinhos da Contemporânea, loja de instrumentos musicais, todas as manhãs de sábado. E foi o Rago, com o seu saudoso regional, quem acompanhou Francisco Alves naquela memorável noite de 26 de setembro de 1952, em São Paulo. Rago e Chico eram muito amigos. Quando excursionava pelo país, Chico fazia questão de chamar o Rago e sua turma. Naquela noite, depois do show, Rago deu uma carona para o Chico e o levou até o Hotel das Palmeiras, perto da Praça Marechal Deodoro. Ali os dois se despediram, Chico disse que iria tomar um banho e, em seguida, pegar a estrada porque ele tinha pavor de avião. Quis o destino que ele partisse de maneira tão trágica, deixando todo o Brasil órfão do seu ídolo maior. Seu sepultamento, até então havia sido o maior já ocorrido na história do Rio de Janeiro, fenômeno repetido dois anos depois quando do enterro de Carmem Miranda. Francisco de Morais Alves, era seu nome verdadeiro. Chico cursou apenas a escola primária e logo adolescente interessou-se pela música como fã ardoroso de Vicente Celestino, cujas apresentações não perdia. Coincidência ou não, foi no próprio Teatro São José - berço artístico do grande tenor – que Chico Alves também começou sua carreira profissional, cantando Pé de Anjo, do seu amigo Sinhô. Era o início de uma escalada artística fenomenal. Chico gravava quase todos os dias. Os discos eram garantia de venda absoluta. No início da carreira foram vários sambas, marchas de carnaval, valsas, tangos, modinhas. Ele cantava tudo o que aparecia pela frente, mas vamos citar as mais famosas, como foi o caso de Fita Amarela, de Noel Rosa, Cai,cai, balão, de Assis Valente, Pálida Morena, de Freire Júnior, A mulher que ficou na taça, de Orestes Barbosa, Foi ela, do Ary Barroso, É bom parar, de Rubens Soares, Serra da Boa Esperança, de Lamartine Babo, Onde o céu azul é mais azul, do Braguinha e Alcir Pires Vermelho, Canta Brasil, grande samba exaltação de Alcir e David Nasser, Aquarela do Brasil, do Ary, Despedida de Mangueira, de Benedito Lacerda e Aldo Cabral, Eu sonhei que tu estavas tão linda, de Lamartine, Cinco letras que choram, do humorista e compósito Silvino Neto, enfim, creio que não tenho mais espaço para continuar relatando a imensa obra deixada por Francisco Alves. Em Batatais, Francisco Alves deixou um dos seus fãs mais ardorosos. Trata-se do grande comerciante e corintiano de verdade, Pedrinho Bianco, que fazia questão de viajar para assistir a uma apresentação do seu ídolo. Chico Viola, foi, sem dúvida alguma, o grande Rei da Voz, título a ele conferido pelo locutor Cesar Ladeira, numa idéia muito feliz. Covas Júnior – jornalistaajcovas@radiocapital.am.br