“Quem poderá descrever dignamente as pulsações do coração divino do Salvador, indícios de seu amor infinito, naqueles momentos em que oferecia a humanidade seus dons mais preciosos, a si mesmo no sacramento da eucaristia, sua Mãe santíssima e o sacerdócio? Ainda antes de celebrar a ultima ceia com seus discípulos, ao pensar que iria instituir o sacramento de seu corpo e de seu sangue, cuja efusão iria confirmar a nova aliança, o Coração de Jesus manifestara intensa comoção, revelada por ele aos apóstolos com estas palavras: “Desejei ardentemente comer esta páscoa antes de sofrer”. Mas sua emoção atingiria o ápice quando tomou o pão, rendeu graças, partiu-o e ofereceu-lhes, dizendo: “Este é o meu corpo, dado por vós. Fazei isto em minha memória. Do mesmo modo, depois da ceia, deu o cálice dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue, que por vós será derramado”. Essas observações do papa Pio XII, na encíclica que se tornou ponto de referência quando se estuda a espiritualidade do Coração de Jesus, motiva-nos a apresentar a fundamentação bíblica dessa devoção (O coração na Bíblia e O Coração Traspassado) e a analisar o dom mais precioso do Coração de Jesus – aquele que nasceu de um desejo ardente e num momento especialíssimo de sua vida e missão: a Eucaristia. Na introdução de um livro que escreveu sobre o Coração de Jesus, o teólogo alemão Karl Rahner afirmou que “no futuro do mundo e da Igreja, o homem e a mulher serão místicos, isto é, pessoas com profunda experiência religiosa, ou não serão mais cristãos”. Os místicos, segundo ele, serão capazes de compreender de maneira nova e radical o sentido da expressão Coração de Jesus. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus é despertada no século XVII, quando o jansenismo separava as almas da confiança em Deus, num retrocesso do espírito de amor do Novo testamento para o espírito de temor do antigo testamento. Deus suscitou uma frágil criatura através da qual revelara os tesouros insondáveis de sua misericórdia: Santa Margarida Maria Alacoque. O nome desta santa está indelevelmente associado a moderna devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Por ela o mosteiro da Visitação de Paray-Monial, na França, tornar-se-ia o centro desta devoção. Margarida Maria Alacoque nasceu na França, em 1647. Teve infância e adolescência provadas, sofridas. Órfã de pai, foi confiada ainda criança as irmãs clarissas para ser educada. Mas estranhas molestaria afetou o seu organismo em que nenhum medicamento lhe abrandasse as fortes dores. Margarida fez então o voto a Santíssima Virgem de pertencer um dia ao número de suas filhas religiosas, se recuperasse a saúde. A Mãe das Misericórdias atendeu benignamente este voto. E Margarida pode assim continuar sua formação cultural e religiosa. Ao entrar na vida religiosa, Margarida encontrou muitas dificuldades e provações que acrisolaram seu espírito, preparando-o para as grandes revelações que o Sagrado Coração de Jesus queria confiar-lhe. Certa vez Jesus elevou ao céu esta oração: “Agradeço-te Pai, porque escondestes estas coisas aos sábios e potentes deste mundo e as revelaste aos fracos e pequeninos”. Assim se deu na vida de Margarida. Orientada por sua superiora, começou a cultuar sobretudo o Santíssimo Sacramento do Altar e, neste lugar privilegiado, ela teve revelações divinas. Numa visão diante do tabernáculo, viu Cristo mostrando seu coração rodeado de espinhos, com uma chama e o sinal da ferida da lança, dizendo-lhe: “Eis aqui o coração que tanto amou os homens, até se esgotar e consumir para testemunhar-lhe seu amor e, em troca, não recebe da maior parte senão ingratidões, irreverências, sacrilégios, friezas e desprezos”. Várias foram as revelações do sagrado Coração, insistindo num maior amor a Santíssima Eucaristia, a comunhão reparadora nas primeiras sextas-feiras do mês e a hora santa em reparação por tantos pecados da humanidade, etc. Daí por diante, Margarida se tornara apóstola da reparação ao Sagrado Coração de Jesus. Na comunidade, eram postas em duvida suas experiências místicas, e Margarida foi submetida a provações e humilhações para testar a sinceridade das revelações. Foi então que Deus mandou ao mosteiro um santo sacerdote que, iluminado do alto, converteu-se em devoto apóstolo, dando todo o apoio a Margarida: Pe. Claudio de la Colombiere. A devoção ao Coração de Jesus passou do convento de Paray-le-Monial aos demais conventos da Visitação e, depois, ganhou toda a igreja, tornando-se uma das amadas pelos fiéis e incentivando, ao máximo, a piedade eucarística. Vários papas depois de prudentes e longas investigações dos fatos, deram sua aprovação a este culto. Leão XIII consagrou o mundo ao Sagrado Coração de Jesus, ao passo que Pio XII, mais de uma vez, recomendou esta devoção em cartas encíclicas. Margarida faleceu relativamente jovem, em 1690; suas ultimas palavras foram: “Ah! Como é doce morrer após ter tido uma constante devoção ao Coração daquele que nos deve julgar”.