Eles eram João e José Peres, filhos do imigrante espanhol Salvador Peres e da brasileira Maria do Carmo. Quando pequenos, morando e trabalhando com os pais na fazenda Vargem Grande, em Botucatu, os dois garotos começaram a arranhar a viola e aprenderam a cantar Tristeza do Jéca, pioneira de todas as modas de viola.Logo, junto com o primo Miguel, decidiram formar o Trio da Roça prá cantar na quermesse de Aparecidinha, em São Manoel, quando ganharam o primeiro cachê. Miguel arrumou um emprego em outra fazenda e os dois irmãos resolveram continuar cantando com os nomes de Tonico e Tinoco, por sugestão da própria mãe que achava que João e José não pegava bem.Na época não havia emissora de rádio naquela região e o violeiro Virgílio de Souza, muito famoso em Botucatu, fazia questão de ensinar as modas para a dupla afinada que viria a ser a mais importante da história da música sertaneja de todo o país.As cantorias sempre começavam no final do expediente na roça. Em 1937, a família Perez foi tentar melhorar o padrão de vida em Sorocaba, onde Rosalina, Antônia e Aparecida, irmãs de Tonico e Tinoco, conseguiram emprego na Fábrica de Tecidos Santa Maria.Tonico começou a trabalhar como servente, na Pedreira Santa Helena, da Fábrica de Cimento Votorantim,do senador José Ermírio, ao passo que Tinoco se virava como engraxate de sapatos na Estação Sorocabana.O outro irmão, Chiquinho, formou o batalhão de peões de obra que se engajaram na construção da Rodovia Raposo Tavares.Com o advento do Estado Novo e a Segunda Guerra Mundial, a situação em Sorocaba ficou insuportável e a família resolveu retornar à vida do campo, desta feita trabalhando na Fazenda São João Cintra, em São Manoel.E foi nesta cidade,na Rádio Clube de São Manoel, que Tonico e Tinoco se apresentaram, pela primeira vez, em um programa radiofônico. Eles agradaram tanto que a presença da dupla passou a ser obrigatória, todos os domingos. Em janeiro de 1941, carregando quatro sacos de pertences, toda a família desembarcou na Estação da Luz, em São Paulo, onde as meninas se transformaram em empregadas domésticas; Chiquinho arrumou emprego numa metalúrgica, Tinoco num depósito de ferro velho e, Tonico, sem outra alternativa, passou a mão numa enxada e foi capinar chácaras em Santo Amaro.Mas foi durante um espetáculo de circo que a dupla viu uma luz no fundo do túnel.O circo estava montado na Rua Lins de Vasconcelos, no Cambuci. A atração principal era o legendário trio Torres, Florêncio e Rieli, “Os Três Batutas do Sertão, que se apresentavam na Rádio Record. Por sugestão do grande mestre Raul Torres, eles se inscreveram no programa de calouros do Chico Carretel, da Rádio Piratininga, onde foram classificados. Na mesma época, o Capitão Furtado, apresentava seu famoso programa Arraial da Curva Torta, na Rádio Difusora e promoveu um concurso para escolher uma nova dupla. Tonico e Tinoco, cantando o cateretê Tudo tem no Sertão, foram contratados, iniciando uma carreira que durou 60 anos, só interrompida com a morte inesperada de Tonico, no dia 13 de agosto de 1994, em conseqüência de uma queda doméstica.Foram 60 anos de enorme sucesso, gravando mais de mil discos 78 rotações e vários LPs, destacando a essência da música popular sertaneja, como Sertão do Laranjinha, Chico Mineiro, Moda da Mula Preta, Luar do Sertão, Saudades de Ouro Preto,Tristeza do Jeca, Beijinho Doce, Paraguaia, Maringá, Pingo D´agua, Feijão Queimado, Chalana, Minas Gerais, O Menino da Porteira, La Paloma, Aparecida do Norte, enfim, só sucesso.Hoje, o velho Tinoco, apesar de demonstrar uma saúde de ferro e não aparentar os 93 anos, vive um drama terrível. A esposa sofre de câncer terminal, a doença ceifou suas economias e, inexplicavelmente, ele passa por graves problemas financeiros. Há poucos meses, Sérgio Reis organizou um show de ajuda, mas o dinheiro acabou. Na semana passada, o único filho ligou para o radialista Eli Correa, maior audiência do rádio há 30 nos, com quem trabalho como encarregado da parte jornalística, na Rádio Capital, pedindo ajuda e dizendo que o velho carro Gol da família estava sendo rifado. O Eli tenta organizar mais um show. Isso tudo é muito triste e não acontece somente com o Tinoco. Grandes artistas do passado estão abandonados e passando privações, sem uma aposentadoria sequer.
Covas Júnior – jornalistaajcovas@radiocapital.am.br