Além de notável jornalista geral e grande dramaturgo, Nelson Rodrigues também era um cronista esportivo muito respeitado e que se notabilizou colocando apelidos que marcaram os ídolos do futebol brasileiro das décadas de 40, 50 e 60. para Didi, Nelson escolheu um nome de nobreza porque, de fato, o jogador era nobre, um autêntico príncipe no domínio da bola e dos acontecimentos dentro do campo. Assim, Didi passou a ser conhecido como O Príncipe Etíope,
Valdir Pereira era o seu verdadeiro nome. Didi foi um dos maiores médios- volantes de todos os tempos do futebol mundial. Uma das grandes lendas da história do Botafogo de Futebol e Regatas, do Rio de Janeiro, foi no clube que marcou sua carreira que ele criou a folha seca, uma técnica inventada pelo atleta que consistia numa forma de se bater na bola, numa cobrança de falta, com o lado externo do pé, criando um efeito que enganava os goleiros. Era um efeito inesperado, semelhante a uma folha seca caindo de uma árvore. Tal lance ficou muito famoso quando Didi marcou um gol dessa maneira contra o Peru, nas eliminatórias para a Copa do Mundo que o consagrou, em 1958. Aliás, ele foi contratado para dirigir a seleção do referido país sul-americano, com técnico em 1970. No Fluminense, Didi jogou de 1949 a 1956, tendo realizado duzentas e noventa e oito partidas e anotado noventa e um gols. Quando da inauguração do Maracanã, em 1950, Didi fez o primeiro gol do grande estádio, pela seleção carioca. Ele deixou o clube das Laranjeiras e foi para o Botafogo porque, no Fluminense era vítima de um terrível preconceito racial. Os sócios do antigo clube da elite do Rio reclamavam quando viam um jogador negro usando a entrada social da entidade e exigiram que ele passasse a entrar e sair pelas portas dos fundos. No Botafogo, onde sempre foi muito bem tratado e respeitado, Didi se apaixonou e adotou o clube como sendo o time do seu coração.Lá, ele atuou ao lado de outras lendas do nosso futebol, com Garrincha, Nilton Santos, Gerson, Zagalo, Quarentinha, Manga, Amarildo e outras feras. Pelo Botafogo, Didi disputou trezentas e treze partidas e marcou 114 gols, foi campeão carioca em 1957, 1961 e 1962 e venceu o antigo Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o chamado Rio/São Paulo, em 1962.Mas o fato mais marcante na carreira do grande craque foi a conquista dos dois primeiros campeonatos mundiais pelo Brasil, principalmente o de 1958. Naquela ano, na Suécia, Didi foi eleito o melhor jogador da copa. A atuação de Didi naquele mundial histórico para o futebol brasileiro foi tão deslumbrante e extraordinária que ele passou a ser chamado pela crônica européia de Mister Futebol. Ele tinha uma calma, equilíbrio e técnica invejáveis, além de uma elegância de diplomata, o que lhe valeu o apelido de Príncipe Etíope dado por Nelson Rodrigues. Na decisão contra a Suécia o Brasil saiu perdendo por 1 a 0. Os demais jogadores do time ficaram arrasados com o gol dos donos da casa logo nos primeiros momentos da partida. Didi foi até o fundo do gol de Gilmar, apanhou a bola e começou a caminhar calmamente para o meio-de-campo enquanto chamava cada um dos companheiros e ía dizendo: ...rapaziada, acabou a brincadeira. Resultado: Brasil 5 Suécia 2.O Brasil trazia a tão sonhada Copa Jules Rimet, como era conhecida a taça. Grande mestre Didi. Mestre na elegância. Mestre na maneira de tratar os adversários. Mestre na nobre arte de jogar futebol. Nunca o Brasil perdeu um jogo quando estavam em campo Didi, Pelé, Gilmar, Zito, Nilton Santos, Djalma Santos, Vavá e Zagallo. Didi morreu na manhã do dia 12 de maio de 2001, no Hospital Pedro Ernesto, do Rio de Janeiro, ao 71 anos, de insuficiência respiratória. Covas Júnor – jornalistaajcovas@radiocapital.am.br