Chiquinha Gonzaga, sem dúvida alguma, foi a primeira cidadã brasileira a lutar pelos direitos da mulher. Compositora e pianista de extraordinário talento, iniciou a carreira com apenas 11 anos de idade, compondo uma canção natalina denominada Canção dos Pastores. Mas esse tipo de gênero musical não era a especialidade que ela desenvolveria depois. Apaixonada pela música brasileira de sua época - não aceita pelos membros da nobreza em que vivia -, à medida em que se aprofundava em seus estudos, Chiquinha Gonzaga desafiava todas as regras impostas à conduta das mulheres para alcançar seus objetivos liberais.Filha de José Basileu Gonzaga, general do Exército Imperial,e de sua amante, uma mulata chamada Rosa Maria Neves de Lima, Chiquinha Gonzaga sempre foi bem tratada pelo pai, apesar do alvoroço que essa filha extra-conjugal provocou na família do oficial. Ela vivia em uma casa humilde com a mãe, uma mulher simples e humilde, mas o general fazia questão de visitar a filha semanalmente. Apesar da simplicidade que levava ao lado da mãe, o pai militar fazia questão de educá-la de maneira aristocrática. Tanto é que seu padrinho de batismo era o cidadão Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, hoje patrono do Exército. E foi convivendo nessa dualidade social, com a mãe humilde e o pai membro da nobreza que Chiquinha conheceu Jacinto Ribeiro do Amaral, oficial da Marinha Imperial Brasileira. Adolescente ainda, Chiquinha Gonzaga casou-se com Jacinto de quem logo se engravidou. Ela continuava tocando o velho piano e compondo suas valsas, lundus, chorinhos, tangos e outros ritmos populares, o que deixava o marido irritado, pois ele não aceitava aquele tipo de música considerada “coisa da ralé”. Um dia, o marido determinou que ela não se metesse mais com a música e com os músicos, já que ela aproveitava os dias que o marido estava em alto mar para varar noitadas alegres ao lado dos grandes talentos da época. Chiquinha Gonzaga não teve dúvida alguma: pegou a mala, o filho João Gualberto e caiu fora de casa. Esse tipo de decisão, naqueles tempos, era motivo para gerar escândalos terríveis.Em 1867, entrou em sua vida o cidadão João Batista de Carvalho, um engenheiro com quem teve duas filhas: Maria do Patrocínio e Alice Maria. Chiquinha viveu muitos anos com João Batista, até que descobriu que estava sendo traída por ele. A maestrina botou o engenheiro para fora de casa, gerando outro escândalo. A partir de então, Chiquinha abraçou a arte definitivamente, passando a viver exclusivamente da música, tocando piano em cabarés como profissional e compondo sem parar. Afinal de contas, Chiquinha tinha que lutar para criar os três filhos. Com essa dedicação exclusiva à carreira, a fama de Chiquinha Gonzaga foi aumentando na capital do Império, a cidade do Rio de Janeiro, alastrando-se pelos outros grandes centros do país com as partituras que eram vendidas nas lojas musicais. Foi então que Calado, o grande compositor e violonista, convidou Chiquinha para fazer parte do seu famoso conjunto. Era o grupo musical mais famoso e caro da ocasião, para o qual trabalho não faltava, principalmente apresentando-se em festas de casamentos, aniversários e outros eventos. Nessa época, Chiquinha Gonzaga já era a principal autora de tangos, polcas, valsas, choros e canções do país.Chiquinha Gonzaga passou vários anos mantendo relações amorosas sem muitos compromissos, o que lhe valeu a fama de ser um tanto promíscua. Na verdade, como mulher independente, ela não se preocupava com o que diziam a seu respeito e procurava levar a vida aliando o prazer da profissão com os prazeres do sexo, até que conheceu João Batista Fernandes Lajes, que a procurou para aprender piano. Foi amor recíproco à primeira vista e uma paixão incrível porque Chiquinha já estava com 52 anos e o namorado tinha apenas 16 anos. Para tentar fugir aos “fuxicos”, ela o apresentava como sendo seu filho adotivo. Os filhos,já adultos, quando perceberam que aquele rapaz estava dormindo com a mãe, ficaram indignados e chocados, chegando a sair de casa e ir até à justiça para denunciar que João não era filho-adotivo e sim amante da mãe deles.Foi outro escândalo terrível, mas os três resolveram retirar a ação e aceitar o romance.Quando o rapaz passou à maioridade, com 18 anos, Chiquinha assumiu o casamento formalmente e a união perdurou até a morte da grandes maestrina,no dia 28 de fevereiro de 1935, quando estava começando o carnaval.Sobre a obra de Chiquinha Gonzaga, destaque vai para a polca Atraente, as operetas de costumes A Corte na Roça, Forrobodó, A Juriti (esta última escrita por Viriato Correia) e o maxixe Corta Jaca lançado no Palácio do Catete para o presidente Hermes da Fonseca, a pedido da primeira-dama, a cartunista Nair de Tefé. Chiquinha Gonzaga produziu mais de duas mil composições musicais, além de compor para 77 peças teatrais. Mas a obra mais famosa de toda a carreira da grande artista brasileira, sem dúvida foi a marcha-rancho carnavalesca Abre Alas, composta para o bloco Rosa de Ouro, no carnaval de 1899; Ó ABRE ALAS QUE EU QUERO PASSARÓ ABRE ALAS QUE EU QUERO PASSAREU SOU DA LIRA NÃO POSSO NEGAREU SOU DA LIRA NÃO POSSO NEGAR Ó ABRE ALAS QUE EU QUERO PASSARÓ ABRE ALAS QUE EU QUERO PASSARROSA DE OURO É QUE VAI GANHARROSA DE OURO É QU VAI GANHAR
Covas Júnior – jornalistaAjcovas@radiocapital.am.br